História da praia da Joaquina

Foto: André Freysleben
JOAQUINA
Por:
Marcos Bicudo (Revista inside 1987.)
Dizem os sábios e estudiosos que as lendas, mitologias
e suas crenças, explicam um pouco da evolução
humana.
Dizem as rendeiras - habitantes do retiro da lagoa-, que por
volta do ano de 1850, havia uma rendeira (como toda a mulher
que se preze, naquela região) de nome Joaquina. Ela tinha
por habito fazer suas rendas na ultima pedra do costão
daquela praia deserta (e sem nome). Então levava para
lá suas rendas - ela com o seu vestido de renda -, seus
bilros, suas anáguas e ficava lá, horas e horas...
Até que um dia, Joaquina (desligada pela magia do lugar),
ficou com suas rendas, o dia todo até a noite chegar.
Naturalmente sem se perceber que a maré, a cada minuto,
subia. Chegando cada vez mais perto dela.
Aí então veio uma onda, e carregou Joaquina -
cheia de rendas, que possibilitavam a flutuação
na água - mar adentro, até desaparecer.
Dizem as rendeiras...
Situada a 17 quilômetros do centro de Florianópolis,
a Joaquina, sem sombra de dúvidas, é a praia mais
famosa da ilha. No meio deste "pedacinho de terra perdido
no mar", está um lugar que exerce um fascínio
intenso - e perpétuo (ao que parece) - nas cabeças
das pessoas. Pois desde as curvas e descidas da lagoa, a áurea
e a magia do lugar, impulsionam a todos escolher - eleger -
aquela enorme, e no entanto minúscula praia, como a cor
preferida.
Antagonismos deixados de lado, o fato é que sempre, através
dos anos, aquela estreita faixa da Joaquina é freqüentada
por todos, conceituando-a como a praia da moda.
Desde o tempo em que sua única construção
era o barraco do Maurílio, da época em que os
carros estacionavam na praia, contrastando com o visual agressivo,
e ainda virgem. Tempo das casas de Valter Vanderley - no canto
esquerdo, em cima das pedras - , de Beto Stodiek - aquele que
era o caminho da Joaca, ali no retiro da lagoa - que foi construída
no século passado.
Fica difícil, pra nós, mencionar todos os fatos,
indicar os pioneiros e etc... Principalmente por que estamos
falando de uma das coisas mais sagradas desta terra. De um verdadeiro
patrimônio de todos. No entanto, revolver conceitos e
reviver situações é a nossa obrigação.
LEMBRANÇAS
Antes,
há muito tempo atrás, não havia estrada
para a praia da Joaquina. O acesso à praia terminava
(ou começava), logo depois da ponte da lagoa. Então
se parava o carro e ia-se andando, pela lagoa - inicialmente
- e depois dunas adentro.
Histórias de conhecidos meus, que acampavam na Joaca,
durante os finais de semana eram freqüentes, pernoitavam
e ficavam dois dias lá, sozinhos, num paraíso
que ainda daria muito que falar.
Tempo do bar do Chico, o mais famoso bar de Florianópolis
de todos os tempos, desde a época em que era apenas um
caixotão - ajudado a levantar por freqüentadores
assíduos -, sempre acompanhando as mutações
do lugar, fazendo parte, sem sombra de dúvidas, do cenário
da praia. O bar ia aumentando, a Joaquina sendo descoberta.
Memoriáveis porres, ilustres pessoas - que vaiavam de
celebridades à mendigos, de políticos a jogadores
de futebol, de mulheres a crianças, todos uníssonos
ao proclamar aquele bar como parte da praia. Mas o Chico se
foi, e a Joaquina não...
Tempo em que o único hotel era o Joaquina Beach, de propriedade
de Manoel Menezes. Praia que foi responsável pelo aparecimento
de muita gente, de muitas modas e principalmente, de um esporte
solitário e fascinante, marginalizado e idolatrado; portanto
dualísticamente perfeito.
O APARECIMENTO
Segundo
André Lenzi, um dos mais antigos - da nova geração
- freqüentadores da Joaca, o primeiro surfista que ele
viu surfar foi o Celso Ramos, sozinho lá dentro do mar,
num dia de ondas grandes. Ele juntamente com Betinho Rodrigues,
Minho Ramos, Geraldo Correa, Eduardo Collaço, Ricardo
schoreder e outros, foram os precursores deste esporte aqui
em Florianópolis. Época em que se começava
a entender a necessidade de se aproveitar melhor as ondas.
Em 1974, mais ou menos no meio do ano, aconteceu na Joaquina
o primeiro campeonato de surf, o PIU SURFBOARDS - que levava
o nome de um carioca que arrepiava nas ondas do sul, naquela
época, o Paulinho Piu. Para se ter Idea de como o surf
não atraia ninguém, o evento rolou no meio da
praia, só com os competidores (uns quinze) e os juízes
e organizadores. No canto esquerdo, centenas de pessoas nem
ligavam para o campeonato. Ricardo schoreder foi o campeão
na sênior, ficando para ciso o primeiro lugar na júnior.
Dois anos depois, em 1976, acontecia o primeiro festival de
surf, aqui em Florianópolis, com centenas de pessoas
e um enorme numero de surfistas (até de outros estados)
invadindo a Joaquina, era o I ROCK, SURF E BROTOS, organizado
por Cacau Menezes. Além dos shows que rolavam depois
do campeonato, dos novos nomes na água, este evento marcou
uma época na história da praia. Sim, na entrega
de prêmios, com a Joaca lotada e a presença de
toda a imprensa local, Cacau Menezes fez o prefeito da capital,
Esperidião Amim (ainda muito barbudo e cabeludo) prometer,
na frente de todos, a pavimentação da estrada
da Joaca. O negócio estava começando a esquentar...
SURGE
Logo
após a realização do I Rock, Surf e Brotos,
que teve como campeão, na categoria sênior, o Joinvillese
Caxito, surgia uma nova geração de surfistas da
Joaquina, e nascia forte, tanto que o vencedor, foi Marcelo
Pereira Oliveira, o Bichinho.
Nomes como, Rubens Pereira, o Bita, Flávio Boabaid, Alexandre
Fontes, Ricardo Pereira, Ronaldo Lobato, o próprio Bichinho
e outros, juntavam-se as expressões de porte como Ciso,
Tolo, gigante, Toro, Gênio, etc...E foram surgindo mais
nomes eclodindo mais campeonatos.
EVOLUÇÃO
A
partir de 1978, os campeonatos de surf tornaram-se constantes
na Joaca. Eventos locais, como o primaverão, vencido
por Bita e o Diretur, vencido por Flávio Boabaid, e interestaduais
como o torneio RBS - Sulbrasileiro de surf, organizado por Sérgio
Entres e Roberto Lima, este um garoto que ainda daria muito
que falar na história da praia.
Depois deste Sulbrasileiro - que foi em 79 -, outro campeonato
Sulbrasileiro - agora em duplas - movimentos a praia da Joaquina.
Quando falamos em movimentou é para o leitor ter uma
idea de um grande acumulo de gente mesmo. Pois naquela - com
menos turistas - o Sábado e o Domingo também eram
muito cheios.
Neste campeonato, além de marcar o início de uma
nova década, revelaram-se para Santa Catarina, gratas
surpresas, como por exemplo, o surfista de Balneário
Camburiú, Bilo que quase ganho o campeonato sozinho,
pois seu companheiro de dupla Neo, só surfava bem em
Caburiú, na final deu quem? Caxito e Gugi, é claro,
os dois ganharam tudo nessa época.
Também foi neste ano, 1980, que foi criada a Associação
Catarinense de Surf, com três etapas pelas praias de Santa
Catarina. A primeira foi realizada na Joaquina e quem venceu
foi Roberto Lima. A importância da etapa de Florianópolis,
sempre na Joaca, estava estampada na visão dos organizadores
que sempre, a partir deste ano, começavam e terminavam
o circuito na Joaca. época dos campeonatos de Edson Costa,
o popular Dedinho, que com seus Primaverões e Floripões,
ajudaram e muito no desenvolvimento do Surf Catarinense.
Ficou para 1982, o campeonato Catarinense de estreantes, evento
que se realizara pela ultima vez em 1977, quando foi vencido
por Álvaro Pereira, irmão do Bichinho. Com um
dos melhores mares de campeonato, o Catarinense de estreantes
foi vencido por Marcelo César, que juntamente que juntamente
com seu Eduardo que ficou em terceiro.
E dá-lhe campeonatos, nomes, revelações.
Como o 3º Atlântida FM de Surf, num mar de 8' pés
vencido pelo Florianópolitano, Zeno Brito, apontado por
todos como "o Rei da Joaca" aquele que há tantos
anos pega, e bem todos os dias bons na Joaca.
Muita gente desinformada pode se perguntar porque a Joaquina
é sempre o palco dos grandes campeonatos de surf, já
que a ilha tem mais de 20 praias surfáveis. Flávio
Boabaid, organizador de eventos e dono da Máster Promoções
explica: "A Joaquina é uma das melhores do Brasil
para se fazer campeonatos. As ondas estão sempre lá,
sempre exibindo uma constância impressionante".
E com todos esses elementos (gente para competir, gente para
organizar e, o que cada vez mais acontecia, gente para apreciar),
a engrenagem estava montada...
OS RACIONAIS
A
partir de 1982 o surf Brasileiro ficou, praticamente, sem campeonatos
representativos, eventos importantes e determinantes no cenário
nacional. Com o término do Waimea 5000 - realizado no
Rio de Janeiro -, e que fazia parte do ranking mundial -, a
única opção dos surfistas era o Campeonato
Brasileiro em Ubatuba, em Julho. Assim sendo, Flávio
Boabaid, Roberto Perdigão e Arnaldo Spyder, resolveram
fazer um campeonato mundial aqui no sul, na praia da Joaquina.
Naquela época, a Idea de um campeonato nacional em Florianópolis,
não convenceu muito os surfistas de outros estados; desacreditados
que estava com o surf Brasileiro.
Mas o I Olympikus saiu - e foi um sucesso. A Joaquina - com
muita gente presenciou seu primeiro grande campeonato nacional,
com surfistas de todo o país, o mais importante, com
toda a imprensa divulgando o nome de uma praia que já
começava a ficar conhecida e procurada além das
fronteiras Catarinenses.
O vencedor do campeonato foi Luís Neguinho, um santista
recém-saído do exército, e que impressionou
a todos os presentes com um surf radicalíssimo. O melhor
catarinense classificado foi o Davisinho, ficando em terceiro
lugar.
No ano seguinte, em 1983, os surfistas que voltaram a Joaca
para correr o II Olympikus, já encontraram uma praia
diferente. Se o palanque continuava minúsculo, as novas
construções como o Cris hotel, o aumento considerável
de concorrentes no campeonato e as dificuldades de se encontrar
uma casa para alugar nas proximidades, não deixavam dúvidas,
o paraíso começava a ser invadido.
Dentro d'água grandes revelações, como
por exemplo, o carioca Dada Figeredo que, com um surf muito
solto e com linhas moderníssimas, tornava-se, a medida
que a competição ia chegando ao seu final, um
dos favoritos ao título, porém Dada esbarrou em
Bita, um surfista local da Joaquina, que estraçalhou
nas pequenas esquerdas que rolavam entre a pedra careca e o
costão.
E o campeonato terminou. Muita gente já não voltava
mais para os seus estados, ficavam aqui, curtindo um pouco daquele
mágico canto esquerdo, que apesar de tudo, continuava
lá, inalterado.
INVADIDA
1985,
eis que a Olympikus saiu do mercado do surf, ou melhor, do mercado
em geral, e anuncia que não ai patrocinar mais nenhum
campeonato. Momentaneamente, na cabeça dos organizadores,
a Idea do desmoronamento de um projeto que já havia dado
certo, transformar a Joaquina, no maior palco do surf brasileiro
pesou na cabeça, mas por pouco tempo.
Pois a OP - Ocean Pacific - resolveu bancar o evento, assegurando-lhe
todos os seus prêmios, melhorando-os e cobrindo o campeonato.
Melhor ainda para o surf brasileiro, que assim via, no conhecido
mês de Janeiro, um festival nunca antes visto aqui no
Brasil. Redundâncias a parte, o OP PRO, transformou a
já famosa Joaca, num verdadeiro pesadelo. Aonde para
se chegar na praia, depois das nove e pouco da manhã
tinha que esperar numa enorme fila, que vinha desde a lagoa
(não era lá que terminava o acesso à Joaquina?).
Fora isto, o cada vez maior apoio do governo, interessado num
esporte que já trazia bons frutos, não só
para Florianópolis, mas também ao estado. Apoio
este que se traduziu em presença, literal, como as constantes
visitas, durante o campeonato, do Governador de Santa Catarina
e do Prefeito de Florianópolis.
No surf, mais uma vitória do Santista Picuruta Salazar,
que assim firmava-se como o maior surfista brasileiro da época.
Com cada vez maior numero de revistas e jornais especializados,
bem como o interesse de todas as publicações do
Brasil - Veja, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo,
manchete e etc...- o OP PRO tornou-se marca registrada do verão
Catarinense.
No ano seguinte, todos esperavam o OP PRO, com igual ansiedade.
Os surfistas, pelos prêmios milionários e pelo
reconhecimento óbvio do melhor surfista Brasileiro. Para
os turistas a certeza de verem muita gente bonita, com seus
fios dentais e suas pranchas, coadjuvando um cenário
almejado por todos: a praia da moda.
Com quase 800 inscritos ( o maior campeonato em termos de atletas
do mundo), o II OP PRO teve, pela primeira vez, um campeão
Catarinense, muito acostumado com aquelas pequenas ondas que
rolavam: Davi Husadel, 23 anos, natural de Balneário
Camboriú, há 6 anos residindo em Florianópolis,
ganhava, além de 30 milhões de cruzeiros, uma
passagem para a Austrália. Na categoria amador, também
tivemos um catarinense brilhando: Teco Padaratz, com apenas
15 anos, ficou com o vice campeonato.
Mas é claro, depois do campeonato a Joaquina continuava
a todo o vapor, com lojas e bares proliferando, com o estacionamento,
começando a invadir as dunas, aumentando cada vez mais
para os lados.
Para os habituais freqüentadores, moradores da ilha ou
não, a eminência do pesadelo do "não
dá mais pra ir à Joaquina no verão"
havia se consumado, como consolo ainda sobrava o resto do ano,
no inverno...
THE WORLD
Acostumados
a presenciar, no mês de Setembro, uma Joaquina vazia,
com no máximo, uns cinqüenta gatos pingados na praia,
os Florianópolitanos simplesmente não acreditavam
no que viam, durante a semana muita gente e no final de semana...
Era o HANG LOOSE PRO CONTEST, etapa válida para o circuito
mundial do qual o Brasil esteve ausente por 5 anos.
Verdadeiros heróis deste esporte, alguns nunca tinham
pisado em terras Brasileiras, a emoção de velos
surfar na Joaca não cabe aqui, em sumárias linhas.
Mitos como: Shaun Tonsom, Mark Richards, cheyne Horan, Wayne
Rabbit, Mark Occhilupo, Barton Lynch, Tom Carol, Brad Gerlach
e outros, transformaram um antigo sonho, de muitos, numa alegre
realidade.
E a Joaquina, como que se quisesse recepcionar bem os convidados,
tão longamente esperados, se mostrou impecável.
Com um mar alucinante (ondas de 8' pés), um tempo incrivelmente
aberto e quente, e um público ávido, o campeonato
foi um sucesso mais do que esperado.
Realmente, apesar das previsões dos organizadores, o
que se viu, principalmente no final de semana, foi uma coisa
de louco, quase 20 mil pessoas se acotovelaram na praia e outras
tantas tentavam chegar na Joaquina, tentavam, pois o transito,
o engarrafamento não deixava, para se ter uma idéia,
o governador do estado, Esperidião Amim, teve que chegar
de Helicóptero!!! Fora o trânsito no final do campeonato,
que fez com que os carros só conseguissem sair da Joaca
às 9 da noite, uma praia que se transformou num caos,
sem comida e sem bebida.
Na água uma surpresa, o Australiano Dave Macaulay eliminou
o brasileiro Sérgio Noronha, que brilhou no Hang Loose,
Hans Hedemann, e na final o australiano Mark Occhilupo, ficando
com o primeiro lugar.